quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Cidade Deserta


Calma a madrugada despedia-se abrindo espaço para a manhã que, inconsequente, o empurrava a mais um dia.
Em nome do silêncio voltava ao quarto a tempo de calar o despertador que ainda dormia.
Do abraço morno do chuveiro, soltava-se com alguma dificuldade.
Engolia algo que poderia ser uma maçã.
No carro ninguém buscava música em outra estação. Saídas do rádio, as notícias empoçavam no banco do passageiro.
Ninguém lhe avisava do farol amarelado recentemente.
Ninguém pedia-lhe calma.
Parou na Santo Amaro mas ninguém desceu.
Trabalhou o dia inteiro e ninguém ligou.
Almoçou por obrigação, ninguém provou de sua sobremesa que voltou intacta.
Na volta ao "lar", não contou a ninguém de seu dia.
Não soube de nada.
Não aconteceu nada.
Parou na padaria, ninguém comprou algo para comer.
Brindou à noite, suplicou à lua e entregou-se sem briga a um último trago.
Da sacada olhava as luzes que se distanciavam velozes na cidade d e s e r t a.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Por que será que a gente terminou?


Há pouco, enquanto arrumava na estante os livros que você esqueceu embaixo da cama - talvez pela pressa que estava de ir embora - acabei folheando um deles e pensei triste com meus botões: "Por que alguém leria essa merda?!?" Além desse pensamento bucólico e sincero, pontadas duras e doloridas no peito acusavam sua ausência e, misturado ao sentimento intenso de rejeição, o lamento interrogativo de um coração prático, mas que eu acho que te amava: Por que será que a gente terminou?!?

Amanhã quando eu não for acordado por seu despertador antes da minha hora, vou levantar, mas não encontrarei um restinho de café para tomar antes de sair; também não haverá pendurada na torneira do chuveiro nenhum adereço. Ao sair, pelo hábito, olharei na geladeira para ver se seu iogurte acabou e me perguntarei: Por que será que a gente terminou?!?

Trabalharei até às 18 amanhã; no máximo até às 19, não mais que isso, vou encontrar os da antiga no bar, passado o mal estar do "só veio encontrar com a gente por que levou um pé na bunda", tudo voltará ao normal e falaremos de futebol, sobre ações, sobre chefes incompetentes e empresas gananciosas, chegando finalmente à vocês e em especial a você e, naquela hora, com o quorum da mesa já bem reduzido, perguntarei prô Rafael, que mal entenderá a pergunta, o porque da gente ter terminado.

Assim que a batida da porta na sua saída parava aos poucos de ecoar na minha cabeça, pensei em te escrever, mas não sei como fazê-lo, nunca soube, talvez a falta de gosto pela leitura - que você com certa arrogância sempre criticou - tenha me tirado a possibilidade de escrever, pensei, para em seguida mudar de idéia, eu não escreveria, eu não sei me expressar, nem as músicas, que outrora me traduziam em palavras servem para mais nada! Quando foi que a gente terminou?

Tanto que eu tentei seguir sua linha, me basear em seus exemplos, mas você nunca reconheceu isso.

Como pode essa enxurrada de pensamentos me chegar assim de repente? Eu esticando o braço, apagando a luz e me veio esse redemoinho de idéias. Espero que a Marinha não tenha notado, sabe quem é né? Aquela vizinha gostosinha. Ela veio aqui um pouco depois de sua saída, preocupada com o falatório, acabou aceitando uma cerveja, foi ficando, ficando. Acendo novamente a luz e olho meu sorriso no espelho e pergunto: Por que será que a gente terminou, só agora?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Caminho da música


Prá onde vai a música depois que ela acaba? 
Em meu ouvido ainda ecoa doce a batida 
o coração ainda acompanha o batuque 
meu sorriso ainda tão cheio de vida 
mas meu céu volta a ser feito de estuque.

quinta-feira, 15 de março de 2012

De amores



Você,
outrora bamba e hesitante,
agora apontava firme
descendo vagarosamente a mira
por minha testa,
entre meus olhos
sobre meu nariz
minha boca,
garganta em nó
peito
e, chegado o coração,
disparou seca:
"Eu te amo".
Morri,
de amores!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Espectro


Talvez por pressa, talvez por brincadeira, talvez por esquecimento, talvez até como experimento, mas o fato é que um deus o fez um esboço. Com ele ainda inacabado, deu por concluída a obra e entregou-lhe, tal qual uma pergunta, ao mundo.
Nunca foi resposta, nunca foi chegada, nunca foi destino.
Inexistiu, a priori.
Por vezes se enganava ao ver, de si, uma sombra, como se finalmente houvesse alguém ali, mas havia apenas a sombra, no máximo um espectro.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Gênesis

Da sua língua, que passeava livre, nasciam os contornos da minha boca. Enquanto suas mãos rascunhavam meu rosto, das suas roupas — de você libertas — brotava minha alforria. Siameses ventres, em qual peito batia meu coração? Eu nasci de você e eu nem era pra ser. Se é que fui. "Primeiro, não havia nada."

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Hot-ina


Esperava um desdobramento, uma realidade que, de repente, cismasse de acontecer, uma faísca errante que achasse seu elemento à beira da combustão. Via a vida à beira da combustão, como se fosse esse seu rumo e houvesse algo sustentando-lhe a inércia, mas haveria um fraquejamento, pensava, haveria um relaxamento nessa sustentação artificial e tudo tomaria seu curso, em avalanche, mas era meu conceito quem ruía, dia-a-dia.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Música ao amanhecer


Era um finzinho de madrugada
na boca um traço daquele tinto cuja garrafa jazia ao lado da cama,
no coração um calor que lhe brotava na face,
e a satisfação de uma fome desconhecida até então.
Naquele momento descobriu-se suficiente,
gostava e queria aquela companhia,
mas não precisava mais dela.
Ao longe escutou uma batucada aproximando-se,
fechou os olhos imaginando na pele um toque leve e delicado,
pétalas,
esqueceu no rosto o sorriso enluarado,
mais forte, o ritmo batucava na calha de casa
e o cheiro úmido da generosa embalou-lhe em mais um sonho.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Vc é mais do que uma borboleta azul???

Eu, era apenas uma daquelas borboletas azuis que brincavam no jardim daquela casa!

Já havíamos passado por esse inferno da outra vez - olhando daqui parece ter sido muito mais fácil daquela vez -  estávamos nós novamente tentando adivinhar o que poderia ser modificado para abrandar-lhe o sofrimento, para devolver-lhe o ânimo, mas nada parecia demovê-la da determinação de ir-se, via-se no caminhar, desconfortado e reticente, que ela sedia pouco a pouco à morte que lhe espreitava pela segunda vez, sua enfadada tristeza ficava registrada na poeira sobre os moveis, no olhar oblíquo, na vagareza e imperfeição dos movimentos. Nas raras vezes que nos olhávamos, seu olhar era opaco, indiferente. Deixou de responder, não mais conversávamos, só resmungava quando lhe pegava de mal jeito para coloca-la numa posição que supunha ser-lhe melhor. Deitada ficava o dia todo, mas dormia pouco, não relaxava a cabeça, como se fosse uma espécie de última resistência, deitada, mantinha a cabeça desconfortavelmente levantada. Vigiava seus domínios.

No dia-a-dia, na convivência, ela era chata, exigente, suas manias esquisitas me incomodavam um pouco. Com o tempo deixei de pensar se ela gostava de alguém ou não, eu via apenas indiferença na forma como se comportava, na maneira que ela tinha de exigir o que queria, como impunha-nos suas rotinas. Mantinha sempre distância segura dos afetos, não sabia lidar com eles e sentia-se violada quando lhe eram impostos. Ruídos bruscos a assustavam, ruídos contínuos a atraiam.

Era uma graça quando corria atrás do vento, quando escondia-se à sombra, quando escalava. Parecia chamar, quando me puxava a blusa, quando mordiscava-me a mão. Tolerava bem que eu esfregasse a cara em sua cara, aceitava-me a seu lado na poltrona, vigiava-me para que eu não fizesse nada de errado. Adorava a vista das janelas, temia os pássaros rápidos, fascinavam-lhe movimentos brandos.

Passeava calma pelo quintal, tinha seus lugares prediletos, esquecia-se brincando com os insetos que se aproximassem incautos e, ainda agora, acho que pra ela, eu era apenas uma daquelas borboletas azuis que brincavam no jardim daquela casa, mas que assim seja, eu não me importo, e queria que ela vivesse pra sempre, mesmo sabendo que pra sempre é muito tempo.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

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é como uma penumbra que vai descendo calmamente pelos olhos
como um amargo que vagarozamente domina o paladar
um nó impossibilitando a passagem das palavras
um aperto que imobiliza o coração
uma fome oca de um tempo ido
um desejo minguado
uma certeza manca
ausência.