sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Balacobaco


Nosso véio era CB demais, ô cara do bem. Ficava na miúda, não falava muito, mas sempre ligado nos movimento. Não dava pinta de ser 13, calibroso que só a porra, sempre sussa, de boa, mas minha mãe - cé loco - fechava o tempo com ele. A véia era o cão, puta que pariu, se a coisa não tivesse nos trinques - Ah moleque - ela tocava o terror em cima da galera toda. 
Tudo ia nesses conformes até que um dia o pai, mando fazer uma prancha. 
Cê já tá imaginando o veião numa Long, não tá? Sabe nada! O véio mandou vê numa Fun. Não brincou em serviço, uma fun de 6'5", triquilha de encaixe com ângulo aberto, fundo flat, wide point no meião, sob medida! Escolheu cor e o carai!
A mãe não boto uma fé - ixi mó kaô - soltou o verbo... e o outro só na dele, deixando ela falar, espernear. E ela:
- Tu é um cabrerão, quero ver tu entra no mar com essa pitomba!!
- Tu é o maior prego que eu tô ligada!
- Esse mar vai virar uma marola só!
- Tu é bóia, vai passar vergonha.
- Só vai ter merreca prô teu lado.
A nossa casa era meio na perifa, mas pé na areia, 2 p tu molhava o pé. Aquele marzão grande, fundo e barulhento.
Quando o pai chegou em casa com a danada, todo mundo cresceu o zóio, ele ranco na hora a camisinha - a parada era nefasta - até a mãe ficou UAAAHHH na prancha do véio.
Sem alegria nem cuidado, ele vestiu o long john, foi até a porta, olhou aquele marzão e mandou:
- Nooossa, má tá gringo hein!
O mar tava de cinema, umas onda bem formada, pouco vento, era de rebenta o blindex.
A mãe ficou boladona, mas seguro o BO, mordeu os beiço e só falou:
- Tu qué ir, tu vai, mas aqui não vai ter 0800 não!
Todo mundo congelou, o véio suspendeu a resposta, me olhou e disse:
- Aê.
E me chamou com a cabeça, fui até a porta e perguntei se eu podia tira uma chinfra também, ele me mandou um hang e deu linha, fiz que voltei, mas fiquei olhando, ele foi até a água e, sem olhar pra traz, foi indo mar adentro, primeiro pegou um jacaré, ai partiu para a arrebentação.
Nosso pai não voltou. 
A parte alguma também num foi, fico ali amarradão, só executava a invenção de se surfista, sempre dentro da água, para dela não sair, eu ficava de butuca, às vez ele pingava no outside dava um 10 e voltava. E ó, casca grossa viu, até respeitava os cara do point, mas num tinha haule que cortava onda dele não, ele ia de drop nos cara e sai de dentro que esse tubo é meu, os cara se picava de lá.
A parentada fico de bobeira, uns caipirão da porra, ficavam buzinando no ouvido da mãe, que o véio "tava bilolado", uma tia dizia que era "feitiço", o irmão dizia que era doença, que tinha acontecido a mesma coisa com um primo deles que se pico prum rio e do rio nunca mais saiu, era só groselha e minha mãe cada vez mais desesperada.  O fato corria a boca miúda dando conta de que na Bocadinha um novo rei do surf se criava, quando minha mãe escutou esse zum-zum, primeiro ela achou graça, um veião daquele "se criando", mas depois ralhou com o x9.
A mãe achava que tinha um ás na manga, coitada:
- Quero vê a hora que bate a larica nesse desgramado.
Mas não teve A nem B, o véi fico lá.
Passado uns 3 dias e o véio não saia da água, a gente chamava da praia, ele fazia que não ouvia, tentei ir atrás dele, mas ele foi se afastando eu fiquei com medo e voltei, nisso as vizinhas deram uma ideia na minha mãe, de noite a gente acendeu umas fogueiras na beira da praia e ficô todo mundo junto rezando e conversando, achamo que era capaz dele sair do mar e ver o que estava acontecendo. Vê só que loco! Passado uma meia hora, começou um pinga-pinga de gente, umas mina levaram comida, uns cara levaram bebida, passou um tempinho, neguinho trouxe um back, colou um cara com o violão e tudo virou o maior luau, a mãe saiu pisando duro. Lá pelas tantas rolou um ninguém-é-de-ninguém, meu amigo...
Acabou, que começou a se tornar um evento repetitivo, toda lua cheia tinha luau e com todo aquele teretetê. Em casa eu não comentava nada, se não sujava, mas saia na miúda, depois que todo mundo dormia e voltava antes do amanhecer. Foi assim por um tempão, até que num desses dia aconteceu um negócio que me deixou gelado. Eu não tava chegando no point e dei de cara com a prancha de meu pai espetada na areia? Já fui procurando de cara em cara e nada de vê o pai, pintou até uma dúvida, será que eu não lembrava mais da cara do véio?
Pisquei e a prancha não sumiu? Fiquei de butuca na praia até o dia clarear até conseguir ver se ele continuava mesmo no mar, se não tinha sofrido algum acometimento, mas vi ele, lá lonjão.
Por conta do ocorrido acabei chegando mais tarde em casa e minha mãe, já levantada, começou a pesar na minha, ela não botou fé que eu não tinha ido na festa:
- Ah, tu num foi não abestado? Então venha cá que vou lhe cheirar.
Cheiro meu cabelo, cheiro minha camisa, cheirou minha orelha, meu nariz, minha boca, meu sovaco, Deus do céu de repente ela ia querer cheira meu cu! Pelo menos deu tempo de inventar uma história pra contar, se não ia acabar dizendo que tinha ido na festa mesmo.
- Ah mãe. Eu falei.
- Eu fui vê se o pai tava lá. Porque eu sonhei que o pai saia da água de noite e ia dar uns rolezinho com a rapeize.
Rummm! A mulher ficou branca, parecia que ia ter um troço - pior que no dia que ele foi embora - mixou a conversa. Ela foi fazer as coisas dela mas se via que remoia nosso conversê, fiquei preocupado, mas não teve jeito de volta no assunto com ela, ela saiu antes do almoço e só voltou no finzinho da tarde - coisa que ela nunca tinha feito - voltou com ar de resolvida.
Fez a janta, deitou-se cedo e tudo correu normal nos outros 2 dia dando pinta de que o problema tinha ido com a maré, mas no terceiro dia entregaram em casa uma caixona, a mãe fez cara de criança ganhando brinquedo.
Agora tô eu aqui sem saber que rumo dá na minha vida. 
Da caixa aberta minha mãe tirou uma prancha de body board.
Disse só:
- Vô mais teu pai, cuida das criança.
E rapou de casa.
Deu ruim heim!


Inspiração: 3a margem do rio

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Casamento


De verdade, de verdade, de verdade, só se casa uma vez.
Muita coisa na vida é assim:
De verdade, só uma vez.
Cada vez mais as pessoas acreditam menos que seja assim
mas, independente da crença e da aparência, continuará sendo verdade.
Uma oportunidade única,
um tiro único,
por isso o tabu com as primeiras vezes, elas merecem.
Dentre as centenas ou quem sabe milhares de eventos inéditos
o casamento talvez seja o mais singular:
Duas pessoas se conhecem,
trocam seus números,
se encontram novamente
e trocam ideias,
voltam a se encontrar
trocam impressões,
trocam opiniões,
trocam gostos, vontades, carinhos
e trocam fluidos,
trocam pedidos,
até que um dia trocam sonhos e não haverá mais volta.
Nas segundas ocorrências há sempre a sombra da primeira,
o vestígio,
o bom e o ruim que fica pra sempre,
como uma marca,
um segredo,
uma bobagem qualquer,
que alguns chamam "saudade".


Fotografia: Carol Lancelotti (Absolem.co)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Sampa


Somos uns filhos da puta do caralho e não tem merda nenhuma que possamos fazer a não ser nos apinhar em esquinas, pontos de ônibus, portas de lotérica, restaurantes por quilo.

Farmácias.

Só entupido de remédios pra suportar a agonia de viver com você.

Odeio você em cada farol quebrado por onde passo, em cada buraco em que caio, em cada poça de água podre que me espirra no pé.

Toda essa porra me enoja: essa sujeira que fica por seu rastro, esse mau cheiro, essa fumaça, essa mentira.

Você é escombro e seus prédio pútridos mostram a ironia em seus espelhos: somos todos iguais nesta noite!

É sempre noite em seu seio, é sempre feia sua noite.

Não há prazer em suas curvas; sua chuva turva encharca de tristeza nossas almas órfãs.

E é aqui, do cu do mundo onde eu moro - onde a água desaprendeu a chegar nos canos, onde canos quentes botam pra foder - que eu choro, vez por outra, ao ver suas luzes como estrelas piscantes prometendo um amanhã melhor.

O quão melhor é ter um amanhã?

Sei que nem a bala que vara minha janela me encontra; se há algo de bom nisso tudo, é que você me livrou do medo que eu sentia a cada zunido ou grito.

Alargo o passo sobre o presunto dos pés juntos - não me interessa saber quem era.

Há Deus? Só para os seus!


PS: esta é uma obra de ficção. Amo SP!

sábado, 23 de janeiro de 2016

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Pecador



"Eu não consigo me controlar,
tenho um demônio na carne, no corpo.
Sonho acordada na escuridão da minha cela,
utilizo os dedos pra provocar sensações proibidas.
Eu não sei explicar como isso acontece,
eu sinto um formigamento percorrer o meu corpo,
algo se desprende
e caminha em direção a você"  3naMassa

Você entra comigo pela porta da sala,
me vê sacar os sapatos e, 
enquanto me ajeito ao sofá com a cerveja,
se interpõe à TV e me assiste.

As imagens são luzes que contornam seu corpo e me divertem.
Os sons... não há sons, há saliva e fome.

Me segue em direção à cozinha,
enfia a colher na minha sopa.
Como, com você passando os dedos por meus lábios, contornando meu nariz.
Senta-se em meu colo, me abraça, acomoda a cabeça sobre meu ombro,
alisa minha barba.

Mirando o relógio, entreouve os assuntos rotineiros,
puxa com força meu cabelo - quer me arrancar dali.
Não sossega até rumarmos ao banheiro.

Sob a água morna para quente, encosta a boca em meu ouvido
e ouço de amores improváveis.
Cola-se ao box e oferece-me as costas.
Minhas mãos descem pelo vidro liso.

A vejo refletida nas gotas que aceleram para o chão.
Junto à cabeça, ensaboa meus pensamentos sujos,
esfrega os restos do dia que ainda sobreviviam em minhas costas.

Apoiado à parede meu corpo acompanha seus movimentos compassados.
Não encontro suas pernas entre o vapor e a espuma.


Sento no piso molhado.
Tudo vai pelo ralo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Não Matarás



Tudo era vermelho, meu sangue embotava-me a visão e o dele respingava na parede a cada golpe. Estávamos exaustos e não havia mais a possibilidade de um vencedor na disputa. Disputa!?! O motivo já havia sido engolido, misturado ao caldo grosso, quente e enferrujado que me enchia a boca e escorria na camisa. Ele repetia a mesma frase sempre que me atacava, eu apenas socava, sem força e sem direção ao perceber um movimento mais próximo. Estávamos cercados por fantasmas que assombrávamos com nossos gemidos, os gestos já automatizados faziam a cabeça e o tronco balançarem num pêndulo bêbado de um boxeador veterano. Nada mais importava e decidi acabar com aquilo de uma vez, baixei a guarda, fechei os olhos e esperei o golpe que não tardou, senti os ossos de seu punho esmagando meu nariz, o fluído que me entupia as vias impelido com força garganta abaixo, a cabeça arremessada chocou-se contra a parede, cai sobre a mesa de canto e permaneci ali imóvel até a manhã seguinte. Levantei com muita dificuldade e muitas dores, ele estava desmaiado sobre o tapete da sala, caminhei até a gaveta da cômoda e, segurando firme com as duas mãos, enfie seguidas vezes a tesoura longa e pontuda em sua garganta, dessa vez não conseguiu repetir frase alguma, aguardei até que o sangue passasse a escorrer mais lentamente, fui até a cozinha, fiz o café e pensei: “forte e hoje só para um”.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Elevador


Mais dia menos dia entraremos juntos no elevador, a estatística assim o diz.
Haverá testemunhas, ou não.
Perceberão um "certo clima", ou não.
Nos cumprimentaremos com indiferença.
Serão longos minutos e você descerá andando rápido, sem olhar para traz.
Nenhuma ingênua dúvida se acercará de suas certezas.
Nenhum intruso pensamento riscará sua mente.
Na bolsa, a chave do carro será localizada rapidamente, no local preestabelecido.
No rádio, a estação de sempre tocará um hit novo.
Tudo continuará exatamente como nunca foi.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Domini-bus


Ou-nibus: diletante ser que hora passa, hora não passa
Cão-nibus: aquele que morde as calçadas, mijando as poças nos pés distraídos
Chão-nibus: senhor das curvas agressivas, freadas desnecessárias
Féu-nibus: de amargas horas, visceral contrariedade
Pau-nibus: resvalado, por caras "de paisagem", em bundas, bolsas e coxas
Léu-nibus: do acostamento da vaidade à carência da vontade, ausentado
Mel-nibus: rastro delicado de silêncio entremeando-lhe energia
Seu-nibus: força sugadora de atenção, provedora de alegria
Céu-nibus: pedaço azul, ponte, vastidão, novo horizonte
Véu-nibus: bilhete unívoco, inequívoco caminho
Prole-bus: renovada essência, multiplicada existência
Duro-bus: corta, no vermelho, a Av. Amor
Credi-bus: financiada subsistência, postergada decadência
Pax-nibus: calada dúvida, solidária dívida
Réu-nibus: penalizada rota, iminente bancarrota
INRI-bus: ponto final.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Passeio noturno – Parte II



O ritual foi sendo seguido, noite após noite, mal conseguia jantar, o que, aliás, foi muito bom, perdi até alguns quilinhos! Eram homens ou mulheres, novos ou velhos que cumpriam com exatidão seu papel, verdadeiros artistas do improviso, uns gritavam, uns jogavam as sacolas, bolsas ou pastas para o ar, clamavam por um Deus omisso que, provavelmente também estava assistindo a novela.
Lembro a primeira vez que houve repercussão de um caso... causou-me uma mistura de satisfação, orgulho e uma pitada de medo... entrevistaram vizinhos, transeuntes, guardas-noturnos, ninguém havia visto nada, ninguém sabia de nada, inocentes! Achei prudente, naquele momento, parar por alguns dias, usei essa reclusão para aperfeiçoar meu "método": Passei a escolher as ruas de antemão, limitei a ação a apenas um dia na semana, utilizava os outros para visitar as ruas candidatas, analisar o fluxo de pessoas e até escolher, na rua, os melhores pontos para desferir o ataque, sem árvores, sem buracos e sem possibilidade de fuga para a vítima. Parecia mais emocionante, essa procura, essa análise, esse estudo... eram "preliminares", eu ia me sentindo cada dia mais excitado até o clímax, na sexta-feira, puro êxtase!
Com o tempo fui percebendo que certos bairros davam muito mais publicidade que outros, atropelar no Leblon, por exemplo, era impraticável, tamanha a barulheira que os jornais faziam, ai outra coisa que passei a fazer, monitorar as notícias na imprensa, todo sábado comprava 2 ou 3 jornais para procurar alguma referência à ação da noite anterior, mas normalmente não havia nada, aquelas pequenas ocorrências nada significavam em nosso denso caldo criminal, nada sobressaía à lamentável barbárie dessa cidade.
Tudo caminhou tranquilamente por um bom tempo até que um dia fiquei estarrecido com a notícia que abria o caderno "Bairros" no Globo: "Atropelamento e Fuga" estampava o caderno com grande destaque, para abaixo esclarecer: "O Selvagem do Asfalto fez nova vítima ontem na Vila Mimosa" assim começava a notícia, era eu, certamente, achei simpático: "Selvagem do Asfalto", me senti envaidecido, continuei lendo... não sei porque gastam tantas linhas falando sobre a vítima, como se isso interessasse a alguém, foram 3 parágrafos só de baboseira, mas, depois disso, viria a parte que mudou tudo: "foi a terceira vítima do assassino, só nesta semana", como terceira vítima?!? Do que estavam falando!!! Voltei correndo aos jornaleiros da redondeza, tentando resgatar algum jornal dos dias anteriores, não encontrei. Rapidamente deduzi que só poderia se tratar de algum imitador. Em um primeiro momento, achei ótimo, seria um laranja para assumir meus deslizes. Mas depois da leitura da matéria essa ideia foi me irritando, era um completo amador, já sabiam até a marca de seu carro, era questão de dias e estaria preso... mas as semanas passavam e nada de sua prisão, os repórteres policiais sequer conseguiam notar as enormes diferenças entre nós e colocavam tudo na mesma cesta, isso estava me atormentando e não teve jeito, tive que tomar uma atitude, reli todas as notícias publicadas sobre ele, mas naquele momento todo atropelamento era tratado como se fosse obra nossa, as notícias eram desencontradas, um dia o carro era um Opala preto, no outro um Landau, depois já era cinza, ninguém sabia de nada, prá não dizer que era tudo fajutagem para vender jornal, perdia horas lendo e relendo, tentando encontrar algo, ia às ruas onde ele havia agido, tentava estabelecer uma área de concentração para suas investidas, ele preferia agir mais tarde, depois das 23:00 isso eu sabia e passei a estender meus passeios até depois desse horário, eu privilegiava as ruas onde houvesse sido noticiada alguma ocorrência, tentava identificar exatamente os locais, descia do carro tirava fotos, procurava por pistas, cheguei a localizar uma caneta quebrada, provavelmente da vítima! Não conseguia me concentrar em mais nada que não fosse desmascarar o farsante mas não havia como. fui perdendo o gosto por meus passeios, parei de ler os jornais, vendi meu carro.
Entrei para uma escola de tiro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Na Real


A chuva emprestava à manhã uma certa suavidade, aplacando a aridez do ar, borrando levemente a paisagem e sobrepondo os sons cotidianos com sua canção nostálgica. De certa forma, impregnava o dia com novas perspectivas e ele gostaria de acreditar que, a partir daquele instante, tudo seria diferente do que o previamente estabelecido para uma segunda-feira.
Esqueceu seu devaneio no box do chuveiro, tão logo foi contrariado pela toalha, ainda um pouco úmida, tocando-lhe as costas.
Seguiu com precisão o script de todas as manhãs - mesmo as de verão.
Ao carro, o rádio saltitava, insatisfeito, de estação em estação. Não havia limites à rotina e os dias grudavam-se uns aos outros, que de repente desembocavam novamente em outro final de semana, que era apenas levemente melhor do que os dias úteis.
A realidade era como uma caixa a conter-lhe o coração.