sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Não Matarás



Tudo era vermelho, meu sangue embotava-me a visão e o dele respingava na parede a cada golpe. Estávamos exaustos e não havia mais a possibilidade de um vencedor na disputa. Disputa!?! O motivo já havia sido engolido, misturado ao caldo grosso, quente e enferrujado que me enchia a boca e escorria na camisa. Ele repetia a mesma frase sempre que me atacava, eu apenas socava, sem força e sem direção ao perceber um movimento mais próximo. Estávamos cercados por fantasmas que assombrávamos com nossos gemidos, os gestos já automatizados faziam a cabeça e o tronco balançarem num pêndulo bêbado de um boxeador veterano. Nada mais importava e decidi acabar com aquilo de uma vez, baixei a guarda, fechei os olhos e esperei o golpe que não tardou, senti os ossos de seu punho esmagando meu nariz, o fluído que me entupia as vias impelido com força garganta abaixo, a cabeça arremessada chocou-se contra a parede, cai sobre a mesa de canto e permaneci ali imóvel até a manhã seguinte. Levantei com muita dificuldade e muitas dores, ele estava desmaiado sobre o tapete da sala, caminhei até a gaveta da cômoda e, segurando firme com as duas mãos, enfie seguidas vezes a tesoura longa e pontuda em sua garganta, dessa vez não conseguiu repetir frase alguma, aguardei até que o sangue passasse a escorrer mais lentamente, fui até a cozinha, fiz o café e pensei: “forte e hoje só para um”.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Elevador


Mais dia menos dia entraremos juntos no elevador, a estatística assim o diz.
Haverá testemunhas, ou não.
Perceberão um "certo clima", ou não.
Nos cumprimentaremos com indiferença.
Serão longos minutos e você descerá andando rápido, sem olhar para traz.
Nenhuma ingênua dúvida se acercará de suas certezas.
Nenhum intruso pensamento riscará sua mente.
Na bolsa, a chave do carro será localizada rapidamente, no local preestabelecido.
No rádio, a estação de sempre tocará um hit novo.
Tudo continuará exatamente como nunca foi.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Domini-bus


Ou-nibus: diletante ser que hora passa, hora não passa
Cão-nibus: aquele que morde as calçadas, mijando as poças nos pés distraídos
Chão-nibus: senhor das curvas agressivas, freadas desnecessárias
Féu-nibus: de amargas horas, visceral contrariedade
Pau-nibus: resvalado, por caras "de paisagem", em bundas, bolsas e coxas
Léu-nibus: do acostamento da vaidade à carência da vontade, ausentado
Mel-nibus: rastro delicado de silêncio entremeando-lhe energia
Seu-nibus: força sugadora de atenção, provedora de alegria
Céu-nibus: pedaço azul, ponte, vastidão, novo horizonte
Véu-nibus: bilhete unívoco, inequívoco caminho
Prole-bus: renovada essência, multiplicada existência
Duro-bus: corta, no vermelho, a Av. Amor
Credi-bus: financiada subsistência, postergada decadência
Pax-nibus: calada dúvida, solidária dívida
Réu-nibus: penalizada rota, iminente bancarrota
INRI-bus: ponto final.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Passeio noturno – Parte II



O ritual foi sendo seguido, noite após noite, mal conseguia jantar, o que, aliás, foi muito bom, perdi até alguns quilinhos! Eram homens ou mulheres, novos ou velhos que cumpriam com exatidão seu papel, verdadeiros artistas do improviso, uns gritavam, uns jogavam as sacolas, bolsas ou pastas para o ar, clamavam por um Deus omisso que, provavelmente também estava assistindo a novela.
Lembro a primeira vez que houve repercussão de um caso... causou-me uma mistura de satisfação, orgulho e uma pitada de medo... entrevistaram vizinhos, transeuntes, guardas-noturnos, ninguém havia visto nada, ninguém sabia de nada, inocentes! Achei prudente, naquele momento, parar por alguns dias, usei essa reclusão para aperfeiçoar meu "método": Passei a escolher as ruas de antemão, limitei a ação a apenas um dia na semana, utilizava os outros para visitar as ruas candidatas, analisar o fluxo de pessoas e até escolher, na rua, os melhores pontos para desferir o ataque, sem árvores, sem buracos e sem possibilidade de fuga para a vítima. Parecia mais emocionante, essa procura, essa análise, esse estudo... eram "preliminares", eu ia me sentindo cada dia mais excitado até o clímax, na sexta-feira, puro êxtase!
Com o tempo fui percebendo que certos bairros davam muito mais publicidade que outros, atropelar no Leblon, por exemplo, era impraticável, tamanha a barulheira que os jornais faziam, ai outra coisa que passei a fazer, monitorar as notícias na imprensa, todo sábado comprava 2 ou 3 jornais para procurar alguma referência à ação da noite anterior, mas normalmente não havia nada, aquelas pequenas ocorrências nada significavam em nosso denso caldo criminal, nada sobressaía à lamentável barbárie dessa cidade.
Tudo caminhou tranquilamente por um bom tempo até que um dia fiquei estarrecido com a notícia que abria o caderno "Bairros" no Globo: "Atropelamento e Fuga" estampava o caderno com grande destaque, para abaixo esclarecer: "O Selvagem do Asfalto fez nova vítima ontem na Vila Mimosa" assim começava a notícia, era eu, certamente, achei simpático: "Selvagem do Asfalto", me senti envaidecido, continuei lendo... não sei porque gastam tantas linhas falando sobre a vítima, como se isso interessasse a alguém, foram 3 parágrafos só de baboseira, mas, depois disso, viria a parte que mudou tudo: "foi a terceira vítima do assassino, só nesta semana", como terceira vítima?!? Do que estavam falando!!! Voltei correndo aos jornaleiros da redondeza, tentando resgatar algum jornal dos dias anteriores, não encontrei. Rapidamente deduzi que só poderia se tratar de algum imitador. Em um primeiro momento, achei ótimo, seria um laranja para assumir meus deslizes. Mas depois da leitura da matéria essa ideia foi me irritando, era um completo amador, já sabiam até a marca de seu carro, era questão de dias e estaria preso... mas as semanas passavam e nada de sua prisão, os repórteres policiais sequer conseguiam notar as enormes diferenças entre nós e colocavam tudo na mesma cesta, isso estava me atormentando e não teve jeito, tive que tomar uma atitude, reli todas as notícias publicadas sobre ele, mas naquele momento todo atropelamento era tratado como se fosse obra nossa, as notícias eram desencontradas, um dia o carro era um Opala preto, no outro um Landau, depois já era cinza, ninguém sabia de nada, prá não dizer que era tudo fajutagem para vender jornal, perdia horas lendo e relendo, tentando encontrar algo, ia às ruas onde ele havia agido, tentava estabelecer uma área de concentração para suas investidas, ele preferia agir mais tarde, depois das 23:00 isso eu sabia e passei a estender meus passeios até depois desse horário, eu privilegiava as ruas onde houvesse sido noticiada alguma ocorrência, tentava identificar exatamente os locais, descia do carro tirava fotos, procurava por pistas, cheguei a localizar uma caneta quebrada, provavelmente da vítima! Não conseguia me concentrar em mais nada que não fosse desmascarar o farsante mas não havia como. fui perdendo o gosto por meus passeios, parei de ler os jornais, vendi meu carro.
Entrei para uma escola de tiro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Na Real


A chuva emprestava à manhã uma certa suavidade, aplacando a aridez do ar, borrando levemente a paisagem e sobrepondo os sons cotidianos com sua canção nostálgica. De certa forma, impregnava o dia com novas perspectivas e ele gostaria de acreditar que, a partir daquele instante, tudo seria diferente do que o previamente estabelecido para uma segunda-feira.
Esqueceu seu devaneio no box do chuveiro, tão logo foi contrariado pela toalha, ainda um pouco úmida, tocando-lhe as costas.
Seguiu com precisão o script de todas as manhãs - mesmo as de verão.
Ao carro, o rádio saltitava, insatisfeito, de estação em estação. Não havia limites à rotina e os dias grudavam-se uns aos outros, que de repente desembocavam novamente em outro final de semana, que era apenas levemente melhor do que os dias úteis.
A realidade era como uma caixa a conter-lhe o coração.

sábado, 5 de julho de 2014

Pessoa


Mesmo que acabe, não tem fim seu feito
predicado, predicativo de um sujeito.

Etéreo ventre, que pari,
que nasce, que renasce,
que aquece, apetece
pessoa, boa.

Língua de todos idiomas.
Ócio finito, alegria infinda.

Coisa que passa,
que transpassa,
passagem,
prá vida,
de ida.
Pessoa viva.

Troço que define,
o céu e o chão,
o Homem e o cão.

Coisa que não sobra,
que nada fixa,
mutável, amável, adorável.
Pessoa.

Pedaço de si,
de mi, de , de dó,
em sol bemol, pessoa ecoa.
Música, lírica
pessoa soa, ressoa.

Pertence de quem merece,
conhece,
objeto de toda prece,
Amém pessoa.

Fome de um si melhor.

Negocio que chega,
se espalha,
chuva esparsa
recolhida
a mesma calha.

Pessoa:
Nome, de quem não tem nome.


terça-feira, 25 de março de 2014

Depois


é como a banda que a pouco deixara a música espalhada por todo canto, mas que agora já dobra a esquina, abandonando o sorriso congelado que vai desmontando lentamente na face dos ouvintes
é como a reflexão que segue o surto
é como a luz que se acende, findo o filme lindo de doer
é como a alegria do lápis rolando pela mesa se dissipando sob o som estridente da ponta quebrando ao chão
é como o gosto inconveniente do palito ao fim do picolé.

sábado, 2 de novembro de 2013

Doo, do, doo, do, doo, do, do, doo


Tento caminhar apenas deste lado,
finjo não ouvir nenhum chamado,
e procuro ficar, sempre do lado claro.
Estou tentando ficar, sempre do lado claro.

Eu sou cortes, procuro ser educado,
paro nos "Pares", sigo com cuidado
e procuro ficar, sempre do lado claro.
Eu procuro ficar, sempre do lado claro.

Penso que é assim que deveria viver prá sempre
e acho que é assim que você gostaria de viver prá sempre,
mas me vem a sensação de algo errado,
não sei se pode haver algum culpado.
Eu tento ficar, sempre do lado claro
e eu hei de ficar, sempre do lado claro.

Há dias que eu fico sufocado, um outro eu me traveste, me sinto inadequado
e é mais difícil ficar, sempre do lado claro,
é bem difícil ficar, sempre do lado claro.

Nesta canção faço de conta que nada me magoa
a seus ouvidos, te convenço que nossa vida boa:
Fazemos bem de ficar, sempre do lado claro,
mas não suporto ficar, sempre do lado claro.




terça-feira, 27 de agosto de 2013

Paradeiro


Há sempre uma enorme ambiguidade sobre-nadando minhas certezas.
No fundo parece que nada que penso, que vejo ou sinto, é uno.
E é a resignação quem embaça, vagarosamente, o brilho dos sonhos sobreviventes - ainda entremeados às duvidas.
É a resignação quem macera-os em meio a rotina.
É a resignação quem lhes desbota
e quem lhes lava,
pois hão de serem sujos.

"Haverá paradeiro
Para o nosso desejo
Dentro ou fora de um vício?

Uns preferem dinheiro
Outros querem um passeio
Perto do precipício."

sábado, 24 de agosto de 2013

Ora, pílulas


raso, o copo
esqueço a sede
benção ou maldição?