quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Carta #6

oi baby,

Tô ótimo!
Tenho estudado bastante, trabalhado bastante, talvez para aplacar aquela sensação de que falta alguma coisa.
você sabe o que é isso?
Você sabe o que é isso.
É aquilo que fica quando apagam-se as luzes e
aquela mancha no teto, que te faz pensar em qualquer outra coisa,
some também.
Aí é só você e Você,
tudo fica estranho,
como se a noite não quisesse engrenar,
patinando, não abre espaço aos sonhos.

Dá um medo menina,
quando eu olho no relógio e já vejo o amanhã chegando...
com a cara de ontem.

saudade? Só quando Você não está.

beijo

terça-feira, 4 de outubro de 2016

bom, nunca fui

eu nunca fui bom em falar das coisas que sinto
eu nunca fui bom em falar das coisas
eu nunca fui bom em falar
eu nunca fui bom
eu nunca fui

sábado, 17 de setembro de 2016

Carta #5






Foi hoje que eu acordei sem você. Não ria, sei que faz tempo, mas acho que eu dormia da sua ausência.
As coisas ainda estavam tão do seu jeito, parecia que você vinha arruma-las quando eu saia. Imaginava que dia desses você ainda se esqueceria por aqui e quando eu chegasse, te contaria do meu dia e faríamos de conta que eu não disse nada do que eu disse e de que você não fez nada do que fez. Um vaso intacto seríamos nós pra toda vida. Flores e perfumes, pra toda vida cheios.
Mas hoje eu acordei... e sem você, a torneira pingava um plec... plec... plec, a pia manchada da ferrugem lenta que vem com cada pingo. Como ela era tão branca quando viemos pra cá, lembra? Agora vê-se aquela mácula alaranjada escorrida até o ralo, que também era mais brilhante noutros tempos.
Pelo canto do olho quase vejo as escovas ainda alinhadas na beira da pia, o tubo de creme dental, hoje disputariam espaço com o aparelho de barbear, o vidro de perfume vazio, lascas de unha, cabelos, pelos, os óculos de usar no banheiro, o livro que não aguento mais tentar ler, todos ali.


esperamos você.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Carta #4


Oi Baby,

Chove tanto hoje.

Vejo o mar quando ouço os carros passando pela rua molhada.
No asfalto, as rodas espirram nova onda que vem quebrando gigante, se aproxima, me atravessa - não
me leva.

Não tem onda que me leve sem você.

Sou pé cravado na areia fina, quase tão fina quanto seus cabelos e pelos.
Guardo-lhes a memória nos dedos, ainda quentes, minha boca inunda de saudade.

Chove um oceano aqui dentro, um apartamento em maré alta.
As janelas escorrem, água verte da parede, escorro por baixo das portas, é tua vazante que me lava.

tudo é sal.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Carta #3


Oi Baby,

Faz tão pouco tempo que você me deixou
quase vejo seu vulto entre uma porta e outra.
Seu cheiro me busca para dormir.
Acordo à noite e ouço seu ronronar manso, de quem dorme sem culpas.
A vida era fácil a seu lado, seu jeito de ver as coisas mudava tudo.

Lembra quando falava que não me amava?
Eu fazia cara triste, ameaçava chorar
depois ríamos muito,
mesmo sabendo que nada daquilo era bricadeira, ríamos
e brincávamos de não saber.

No dia que você entrou em casa eu soube que você iria embora,
não havia o brilho do amor pra sempre.

Você deixou a bolsa sobre a cadeira da cozinha
revelando seu plano de fuga,
ficava claro que
mais dia, menos dia
deixaria tudo pra tras,
só levaria a bolsa e olhe lá.


Grã

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Coletivo



"Filho da Puta", era assim que o ônibus da linha 1525-S, Vila Cândida - Berrini, era carinhosamente chamado por seus passageiros.
- Puta que o pariu, me atrasei, o Filho da Puta já passou?
Chegando ao ponto, o rapaz pergunta, conferindo o atraso no relógio.
- Passou um lotado que só o caralho.
Responde com ar de lamento a senhora que já se encontrava no ponto e sua filha complementa com uma análise precisa da situação:
- Nem adianta. Tava cheio pá porra!!
O rapaz e a senhora continuaram conjecturando sobre a condição precária do transporte coletivo, principalmente nos pontos mais afastados da cidade:
- Que bosta, isso que dá morar no cu do mundo!
- É os caras querem mais que o pobre se foda!
- Nem me fale! E o corno do meu chefe não quer saber de porra nenhuma, 15 minutos de atraso e já me corta o ponto! Engravatado de merda.
Passados 20 min, novo hermético coletivo se aproxima, os três respiram fundo.
A mulher encara o rapaz e em seguida com a sobrancelha faz um sinal para a filha.
O veículo completamente lotado exige uma certa estratégia nas paradas: O motorista faz a aproximação mantendo a velocidade com a qual vinha e em cima do ponto, com gosto, afunda a botina no freio que zurra em homenagem ao condutor. A massa, que já estava no nível extremo de compactação, aproxima-se mais e num mesmo instante vários corpos passam a ocupar o mesmo espaço, meio degrau se oferece aos pretensos passageiros, a mulher calcula com precisão aonde a porta vai parar, se ajeita de modo a oferecer ao rapaz o flanco direito, o rapaz não percebe a manobra e acha que conquistará a preferência de embarque, avança pela direita, ainda no segundo passo ele é interrompido, pela mulher com um leve "jogo de bunda", e fica sem passagem não chegando à porta, a filha avança pelo centro, habilidosa, mantém os pés bem juntos e finca posição no último degrau, como em um bailado a mulher coloca seus pés um de cada lado dos pés da menina, ambas seguram firme na barra de apoio e são agora o ponto de maior tensão no ônibus, a multidão em refluxo tenta retomar o espaço cedido com a freada e os candidatos a passageiros tentando um mínimo apoio para alavancar o ingresso.
Entra em cena o mediador-cobrador:
- Sem fechar a porta o ônibus não saí!
O desconforto é geral, todos tentam se ajeitar para possibilitar à maldita porta de fechar.
Do rapaz, os pés, ainda na calçada, já admitem a derrota, mas o braço guerreiro mantém-se firme segurando a barra e sem sucesso puxando o corpo para cima da mulher.
A porta começa seu trabalho psicológico:
- tchhh tchuuu tchitchi tchuuuu. Ameaçando fechar.
Da massa surge a voz libertadora:
- Olha, o de traz está vazio!
O rapaz se distrai para olhar, o braço falseia e a mulher deixa o peso do corpo fazer o resto do serviço:
- tchhhhh puffffff
A porta se fecha, o tal ônibus vazio está indo para garagem, a mulher e a filha se olham e da calçada o homem ainda mantém o braço a meia altura:
- Filho da puta!
Djair agora em silêncio, já calcula o prejuízo do atraso no holerite.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Carta #2





Bom dia,

Levantei tão cedo hoje,
ainda estou amanhecendo
e a madrugada vai me abandonando
mesmo sem querer.

Me acordou o vento frio entrando pela janela esquecida aberta,
papéis voavam,
corri até ela e me procurei lá embaixo, na calçada,
onde com certo alívio constatei que não estava.

Toco meus ossos e confirmo minha existência e dor,
você me doi até o osso.

Permaneço um tempo olhando pela janela,
há algo de místico e o mundo que passa por ela torna-se mais leve,
quase suportável.
A porta não, tudo entra e sai do mesmo jeito,
e nela ainda me aguarda todo o horror da vida sem você.

Prefiro te esperar a janela.

Hoje sei que não vem,
mas nada é para sempre,
não foi seu amor,
nada mais há de ser.

Você poderia querer me perguntar - até te ouço perguntando:

Prá você o que é prá sempre?

Pois te digo, prá sempre é mais dois, três dias.
Mais uma semana ou um mês, no máximo dois.
Me proponho a durar até ter certeza que você não virá.
Essa é minha perspectiva.

Com nosso fim, até o tempo acabou desistindo de espichar.
O sol sobe lento pela sala,
toca meu pé,
talvez ele saiba melhor dessas coisas de prá sempre,
talvez.

Acho que o sol é prá sempre,
mas um prá sempre de verdade,
de me achar onde quer que eu esteja para aquecer meus pés.

O sol se ergue indiferente a meus lamentos,
prô sol, nunca tem nuvens;
Tudo prá ele passa;
Ele não julga a quem aquece e ilumina
e por isso consegue renascer igual todas as manhãs.

O sol é foda, Baby.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Na Bela Cintra

Foto: Clemente Meyer

     A Bela me olhava de fora, pela janela fria, espantada com minhas cores arroxeadas e olhos piscantes.
Minha cabeça pendia da cama e dos nossos lábios embotados, brotava um cheiro frio de cigarros amanhecidos.
     Jaziam assuntos velhos em garrafas esparramadas que, sem rolhas, permitiam que entornassem  misturando-se às novas queixas.
     Eu queria era olhar a torre de outras janelas e já estava "naquelas" de que "foi melhor assim", mas ainda não era "assim".


     Sobrevivemos bem por um tempo, lá um tapa frouxo já servia para abreviar a discussão indesejada. De certa forma evoluímos e as brigas já partiam de um ponto bem mais baixo.
Sem a necessidade de justificar nada a pancadaria comia quente.
   
     Depois a foda, prá selar a guerra.
   
     Sempre achei que o problema foi que não tivemos um começo, partimos do meio.Nunca soube como fui parar na cama dela.Não tínhamos telefones, não tínhamos passado, não tínhamos nomes, ela me chamava Campari, o fundo vermelho ressaltava o azul dos meus olhos, ela dizia.
     No final da primeira noite, quando sai, ela ainda dormia, por algum motivo anotei o número do apartamento, 121, da entrada principal anotei o número do prédio, 514, e caminhei até a esquina para descobrir a rua "caralho, é aqui que fica a Bela Cintra!".
     De bobeira uns dias depois toquei lá, a porta abriu, subi, meti, desci, num outro dia novamente e assim foi indo, às vezes a porta abria, às vezes não; Quando não, às vezes eu ia embora, às vezes eu ficava esperando, às vezes eu dava um rolezinho e voltava, só umas 2 ou 3 vezes fiquei chutando até que ela abrisse.

     Nos completávamos, ela não tinha onde ir, eu não tinha onde ficar.

     Era uma mistura de anti-amor com anti-prazer, nos tratávamos mal, sempre muita dor, muito rancor, juntávamos a raspa do que ninguém mais queria para o outro.
Nas gavetas da cômoda guardávamos os restos do coração, cérebro, dos rins, do fígado entre chás, pós e pílulas.


     Gostava de ficar deitado de costas, atravessado na cama, a cabeça pendurada mirando as torres da Paulista, foi nessa posição que eu morri.

     Ela achou que eu deveria tomar mais vinho, "Vá a merda, não vou levantar daqui" gritei, ela entendeu que uma coisa não excluía a outra e começou a virar a garrafa em minha boca de morcego, encheu minha cabeça de vinho, literalmente, me sufocando, eu não conseguia respirar, comecei a me debater, tentava sem sucesso puxar o ar. Ela achou que eu estivesse zoando, quando pulou em cima de mim para socar-me o peito eu já a via de cima, pelas costas - a única coisa que me incomodava era o silêncio absurdo - enquanto eu flutuava, ela me batia, socava, puxava-me os cabelos, chacoalhava, correu ao telefone falou e gesticulou, correu até meu corpo, eu não estava, voltou ao telefone e depois de mais algumas frases começou a bater com o telefone na cômoda, em seguida na sua própria cabeça até que arremessou-o contra a parede, deitou-se sobre mim e ficou me chamando, quebrando o silêncio. Primeiro era uma voz fininha, baixa e truncada, que foi ganhando corpo e volume até tornar-se um grito ensurdecedor que me resgatou, cai prá meu corpo e depois de uma tossida feroz, que gerou um spray de vinho e morte, o ar entrou queimando em meu peito.

     Ela levantou num sobressalto, depois de manter-se atônita por alguns instantes, pegou minha cabeça e apertou forte contra o seio, ela só soluçava, não conseguia falar, eu ainda não conseguia respirar direito, mas seu peito quente e seu coração ligeiro me remeteram aquele mesmo silencio, só que agora ele era confortável, morno. Ela afastou um pouco minha cabeça, ajeitou meus cabelos e em meus ouvidos pediu desculpas, me beijou o rosto e já ia me alojando novamente no seio quando eu segurei e disse:

     - Quer namorar comigo?

     E ela respondeu:

     - Só se for prá sempre.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Carta #1


Oi Baby,

Sou eu de novo, pensando em você, de novo, como se eu estivesse no ônibus da volta do trabalho, de novo, procurando seus pés em meio a sapatos tristes, de novo.
Só que eu não estou voltando do trabalho - pedi as contas - é só uma analogia, já que meu corpo está balançando, como quando eu voltava do trabalho.

Além do trabalho, abandonei a terapia, o futebol e o curso de escrita. Há tantas coisas que não posso fazer sem você, mesmo nas que você não me acompanhava, sentia sua falta, na ida e na volta. Parei de ir.
Doei o cachorro na terceira vez que ele latiu seu nome, já tinha avisado nas outras duas.
No suco verde de hoje cedo, moí a última violeta.
Os lençóis e fronhas com seu cheiro, os panos de prato com desenhos, as passadeiras da cozinha, despachei, enrolados no tapete da sala.
O sofá ficou bem magrinho sem aquele tecido macio, que lembrava sua pele.
Não sabia direito quais eram meus livros e quais eram os seus, quais eram os meus discos e quais eram os seus, quais eram os meus remédios e quais eram os seus:
Eles sim, agora estarão juntos para sempre.

Pensei em te mandar a parede da sala, onde escrevi uma carta bonita um dia desses.
Desenhei corações na porta do nosso quarto.
Não leia o que está escrito na porta do banheiro.
Retirei as lâmpadas da casa toda e cada vez que recorro ao interruptor ouço aquele cleck, como um coração que se parte e o complementa a escuridão que não afrouxa.

Daqui vejo a rua ainda úmida da chuva que caiu de algum olhar, as luzes já acesas criam sombras e as pessoas somem ao passar por elas, só uma ou outra reaparece do outro lado.
Vou mais para a beirada do parapeito, agarro firme a janela e me inclino pra frente, procurando pelo fim da sombra.
Lembro quando você saiu daqui batendo a porta, em segundos já atravessava a rua correndo, sumiu dentro daquela sombra grandona e não apareceu mais.
Quase serviu de desculpa prá te ligar naquela noite mesmo, mas me segurei.
Agora, ainda estou me segurando.

Sinto-me num pendulo com o mundo indo e voltando, noto alguns poucos olhares preocupados, não ligo.
Ligo pra pouca coisa, sobrou muito pouco.
Parece que eu tenho tanta coisa prá te dizer, mas tudo me escapa, tudo fica tão insignificante diante do volume enorme que faz esse buraco que encho de sua falta.

eu não tenho volta.

Caio F.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Espelho


Acontece muito mais hoje quando encaro o espelho:
Eu mexo o olho e vejo ele mexendo o olho.
Eu faço cara feia e vejo ele fazendo cara feia.
Eu levanto as mãos para o céu e vejo ele levantando as mãos para o céu - como ele nunca faria.

Encontro fácil em mim a vocação para o ócio, embora eu não partilhe da aversão ao trabalho.
Suas palavras eram raras e duras.
Por muito tempo achei que ele era triste, mas não, ele tinha uma ideia muito particular de felicidade.

Foi engraçado seu jeito de se tirar da nossa vida. Mudando-se para noite, desabitou nosso dia.
Ausentou-se o quanto pode, até esquecer o caminho de volta, deixando só um corpo com o olhar solitário e sem rumo.

Choro e ele também chora.

Tento abraça-lo mas nossos braços apenas se tocam.

Nosso sorriso é encantador e o obrigo a sorrir para mim:

- Dói?

"e me abracei na bola e pensei ser um dia
um craque da pelota ao me tornar rapaz
um dia chutei mal e machuquei o dedo
e sem ter mais o velho pra tirar o medo
foi mais uma vontade que ficou pra trás"
Espelho - João Nogueira